Experiências traumáticas podem deixar cicatrizes visíveis e invisíveis nos sobreviventes. Embora não haja um tratamento capaz de apagar para sempre essas marcas, para alguns sobreviventes de abuso, agressão e violência, as “tatuagens terapêuticas” representam um caminho poderoso para a recuperação do corpo e da mente. Segundo recente pesquisa feita pela psicóloga Luzelle Naudé, da Universidade do Estado Livre da África do Sul, e publicado pelo Psychology Today, 25% dos participantes responderam que a motivação para fazer uma tatuagem partiu do desejo de registrar uma superação pessoal.

Nos últimos anos, o tema da modificação corporal por meio de tatuagens vem despertando interesse acadêmico em todo o mundo; no entanto, ainda não há estudos que comprovem a eficácia das tattoos como um meio de lidar com traumas. Porém, relatos de psicólogos, tatuadores e tatuados demonstram um resultado positivo no ato de picar a pele com fins holísticos.

“Fazemos coisas para nos lembrar dos nossos pontos fortes e resiliência, e a tatuagem é uma ótima ferramenta para ativar essa memória”, afirma a Dra. Shainna Ali, conselheira de saúde mental em Orlando, na Flórida, e autora de The Self-Love Workbook, sem tradução para o português. Segundo a psicóloga, um número crescente de sobreviventes de traumas vem optando por lidar com suas feridas através de tatuagens. “Alguns desenhos, como o ponto e vírgula, ganharam popularidade entre sobreviventes de suicídio e automutilação como um símbolo da escolha de continuar a vida”, diz.

Segundo ela, a tatuagem pode ser comparada à arteterapia, na qual sobreviventes são convidados a desenhar ou pintar como um meio de enfrentar experiências traumáticas. Mas a tatuagem tem uma dimensão adicional: pesquisas sugerem que a dor faz parte da experiência terapêutica e que o desconforto (suportável) da agulha colabora para o senso de presença e reflexão sobre eventos dolorosos.

A canadense Kimberly Baltzer-Jaray, professora de Estudos da Mulher no Kings University College, diz que a tatuagem, associada com sessões de terapia, ajudou a reduzir seus sintomas de TEPT, depressão e doenças autoimunes. “Em particular, a tatuagem ofereceu uma transição positiva para os meus mecanismos de enfrentamento como a automutilação”, conta Kimberly. “O ato de cuidar da pele em cicatrização também é um processo poderoso de autoconhecimento”, afirma.

No Brasil, estúdios de tatuagem se especializam no atendimento do público que busca mais do que um desenho na pele. É o caso da tatuadora Karlla Mendes, de São Paulo, que criou o projeto We Are Diamonds para tatuar gratuitamente mulheres vítimas de violência doméstica e outros traumas. “É possível transformar a vida de uma pessoa para melhor através da arte”, disse Karlla em entrevista à Reuters.

Dono da Vertigem Tattoo Shop, em Porto Alegre, o tatuador Jorge Oliveira há 25 anos faz cobertura de cicatrizes, além de desenhos realistas que contam fatos históricos e memórias de família. “É um trabalho delicado que exige técnica especial por conta da textura da pele”, diz. “Por isso, é importante escolher profissionais que dominem a questão técnica com sensibilidade para não provocar mais trauma”, alerta Jorge, que passou por estúdios na Argentina e Uruguai e planeja fazer uma tour internacional ensinando sua técnica de cobertura para outros artistas. “Nos Estados Unidos, muitos veteranos de guerra buscam por esse tipo de tattoo”, conta.

De acordo com uma pesquisa divulgada pela IBIS World, a indústria global de tatuagem, estimada em 1.4 bilhões de dólares, deve crescer 5.4% em 2022. O isolamento social e perda de pessoas queridas por conta da pandemia de covid-19 são alguns dos fatores que impulsionaram o mercado de tatuagens nos últimos dois anos.