O planeta que conhecíamos mudou tão logo o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciou, no dia 11 de março de 2020, em Genebra, na Suíça, que a Covid-19 era uma pandemia. A afirmação é feira pelo economista Felício Vallarelli, especialista em desenvolvimento empresarial. Ele destaca que os reflexos na economia dos países foram imediatos e impactaram toda a cadeia produtiva – inclusive, o setor de transporte de cargas e logística.

De fato, as empresas de transporte apresentaram uma baixa no primeiro ano de pandemia, conforme dados da sexta rodada da “Pesquisa de Impacto no Transporte – Covid-19”, realizada pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) no primeiro trimestre de 2021. 

De acordo com o balanço, 97% dos participantes afirmaram que enfrentavam prejuízos em seus negócios por conta da crise sanitária. À época, 53,4% dos entrevistados disseram que não tinham qualquer previsão para o fim dos prejuízos, e apenas 1,2% afirmou que os danos causados pela pandemia tinham acabado ainda em 2020.

Já  no 3º trimestre de 2021, o setor de transporte brasileiro teve crescimento de 1,2% em relação ao semestre anterior, segundo indicativos divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pelo  Radar CNT do Transporte, concernentes ao PIB (Produto Interno Bruto). Em relação ao mesmo período de 2020, a alta foi de 13,1%. 

“Como é sabido, todos os setores enfrentaram um desafio sem tamanho enquanto o vírus se espalhava pelo globo. Com a logística e transportes não foi diferente. Essa área foi diretamente impactada, entretanto teve que se recuperar rapidamente. Afinal, os transportes representam uma atividade essencial para a sociedade toda”, afirma.

Guerra na Europa é novo desafio para o setor

Para Valarelli, imersos em um cenário pós-pandêmico marcado pela guerra na Ucrânia, as indústrias e transportadoras têm que se reinventar para não serem abaladas pelas crises atuais. Com isso, novos processos de prevenção e cuidados foram implementados dentro da atividade de transporte, tanto no despache quanto na entrega.

”As estruturas que possibilitam o transporte estão sendo repensadas para atender às demandas e prioridades de uma sociedade acometida por um vírus desconhecido e por uma guerra ‘sem eira, nem beira’”, analisa. “Uma coisa é certa: a logística pós-pandemia não pode parar e as empresas precisam apostar em soluções que facilitem suas operações. É necessário colocar a saúde dos clientes e colaboradores em primeiro lugar, seguidas de perto pela qualidade e segurança”.

Sendo assim, prossegue, para contornar a pós-crise de Covid-19 e a guerra na Ucrânia sem perder espaço no mercado, bem como continuar a prover e movimentar recursos, a logística precisa se adaptar às necessidades que acompanham a situação. “O cenário é complexo e novo, as soluções ainda estão aparecendo e a expectativa é uma melhora e volta do crescimento nos próximos meses, mas tudo sugere que muitas coisas vão mudar”.

Crise pode gerar oportunidades 

De acordo o especialista, diversos segmentos do mercado podem aproveitar momentos de crise como um catalisador de boas oportunidades de negócio. Para tanto, é preciso entender a sua dimensão e, principalmente, os motivos que levaram o país a entrar nessa situação.

“Apesar de a crise causar certo pânico entre consumidores e empresários, e de ter suas consequências reconhecidamente negativas, ela também gera oportunidades para quem está devidamente preparado para aproveitá-la. Nesse sentido, a crise é um ótimo momento para duas ações igualmente relevantes: ajustar e inovar”, articula.

Nesse contexto, para Valarelli, é importante fazer uma avaliação do que não estava em seu negócio mesmo antes da crise. 

“Alguns empreendimentos têm problemas com custos muito elevados, com desperdício de matérias-primas ou com clientes inadimplentes. Seja qual for o seu ‘script’, o ideal é que você ‘tome as rédeas’ dele para conseguir contornar os problemas”, explica. “Converse com os diferentes setores do seu negócio, conheça as dificuldades de cada um e, sobretudo, busque a raiz de cada problema. Corrigir somente os efeitos, em vez de trabalhar nas causas, é contraproducente e não tratará os benefícios esperados para o seu negócio”.

Perspectivas para o futuro

Na análise do especialista em economia e desenvolvimento empresarial, o consumo on-line vai aumentar dia após dia, motivo pelo qual as empresas devem se preparar. “Essa visão precisa estar inserida em todos os níveis de planejamento dos segmentos empresariais, desde a previsão de demanda, compras, estoque, até o marketing e transporte”.

Apesar da ascensão do consumo digital, assinala Valarelli, os canais off-line não devem ser deixados de lado. “Mesmo com o crescimento do consumo on-line e com a maior aceitação dos clientes, não podemos deixar de considerar que 73% dos consumidores não acreditam que os serviços virtuais vão substituir os espaços físicos de lojas e restaurantes, por exemplo”, afirma, em referência a dados de um estudo da EY-Parthenon, consultoria de estratégia global da Ernst & Young, divulgado pela Exame. 

“Inclusive, o pós-pandemia deve estimular as compras em ambientes físicos, pelo menos num primeiro momento. Se deixarmos estes canais de lado, podemos perder uma demanda que está muito latente ainda”, conclui.